sexta-feira, abril 22, 2005

"Ninguém morre sozinho"

"Francisco acordou com uma angústia enorme, sem forças para se levantar e ir para a escola secundária. Desde há meses que era assim, aquele sabor amargo na boca, aquela insónia desesperada. E o vazio, sempre o vazio. O fim da sua relação com a Graça, o corte com os amigos, o olhar de súplica da mãe. E o pai sempre ocupado, distante, sem amigos também, envolvido em constantes projectos profissionais.
A recordação cada vez mais presente da sua tentativa de suicídio, há pouco mais de seis meses, no dia em que fazia dezassete anos. Acordar no hospital cheio de frio, com uma enfermeira a estender-lhe uma chávena rachada, onde jazia um leite azedo. O sorriso simpático da psiquiatra de serviço. O estar todo nu, coberto com um lençol rasgado. Mais tarde, em casa, as lágrimas da mãe, o abraço do irmão e o olhar tenso do pai.
Depois de um período em que tudo parecia correr melhor, a ajuda da Graça, aquela festa inesquecível em casa do João, onde se tinha sentido bem consigo próprio, sem detestar o seu corpo anguloso e desajeitado.
E desde há um mês, aquela angústia a subir, a dificuldade em sair de casa, a impossibilidade de continuar vivo. E agora, a decisão tomada: sair para comprar 605 Forte, a pretexto de matar uns escaravelhos na quinta. Saiu rápido, voltou com o veneno que guardou numa gaveta. Talvez que depois da sua morte os pais se dessem melhor, se pudesse finalmente falar lá em casa.
Uma dúvida permanente. Talvez tentasse falar com o médico de família, sujeito calmo e que fazia poucas perguntas.
Dois dias mais tarde, pensava na consulta. O médico dera-lhe «trabalho de casa», tinha problemas concretos para resolver. A mãe descobrira o veneno mas não gritara. Lembrava-se agora que o David tinha melhorado depois de falar com o médico e a família. Por que não tentar? Por que não viver?
E então Francisco sentiu um alívio, um desejo de falar aos pais. Olhou para a lista de problemas elaborada com o médico. Telefonou ao David.
Podia ser que desse. Quando se fala com alguém, vive-se. Mesmo quando se morre, não se morre sozinho."
Na vida, por mais que pensemos o contrário, nunca estamos sozinhos. Há sempre alguém com um ombro disponível para que possamos chorar. Há sempre alguém que nos estende a mão quando mais precisamos, que nos ouve nos momentos bons e nos menos bons...quando nos parece que o mundo vai explodir e que cada bocadinho irá cair directamente em cima de nós! Lembremo-nos disto sempre!
Escolhi este excerto de Daniel Sampaio, porque o achei pertinente para a questão...e porque, além disso, o autor escreve como ninguém...dá-nos uma sensação incrível de bem-estar e paz interior...consegue tirar-nos as ideias mais absurdas da cabeça...consegue devolver-nos à vida!

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