terça-feira, fevereiro 15, 2005

Tempos sisudos

“Há em Petersburgo uns lugarzinhos bem estranhos. Nesses recantos é como se não brilhasse o mesmo sol que arde para toda a gente em Petersburgo, mas outro qualquer, um sol novo, como que encomendado de propósito para esses sítios, um sol que alumia tudo com uma luz diferente, especial… Nesses recantos, […] parece viver-se uma vida muito diferente, nada comparável à vida que ferve ao nosso lado, uma vida talvez só possível no reino dos contos de fadas e não entre nós, nestes nossos tempos sisudos. Essa vida é uma mistura exacta de pura fantasia, de ideal fervoroso e, por outro lado […] qualquer coisa descolorida, prosaica e vulgar, para não dizer: de uma chateza incrível. […]
Nesses recantos moram pessoas estranhas: os sonhadores. O sonhador […] não é uma pessoa, mas uma criatura intermédia […]. Instala-se, na maioria dos casos, nalgum recanto inacessível, como se até da luz do dia se escondesse. […] Por que acha que esta criatura gosta tanto das suas quatro paredes, inevitavelmente pintadas de verde, fuliginosas, tristonhas e inapelavelmente impregnadas de cheiro a tabaco? Por que é que esse ridículo senhor, quando recebe a visita de algum dos seus poucos conhecidos (depois acaba por perder todos os conhecidos) […] fica tão cheio de confusão quando lhe abre a porta, com uma cara tão perplexa e embaraçada, como se tivesse acabado de cometer um crime entre as suas quatro paredes […]?“


Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski


Respostas?
Nos tempos sisudos em que vivemos, parecem nunca haver respostas.
Cada um vive no seu recanto, tentando esconder o que é. Reprimindo sempre sentimentos.
Censurando sempre pensamentos.
Quando tenta abandonar o refugio, a criatura intermédia de que fala Dostoiévski, não reconhece o resto do mundo. E o resto do mundo não o reconhece a ele.

Então, na Grande Avenida, o bombardeamento acontece.
Balas perdidas.
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Vitima do seu próprio crime, o sonhador.

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