quinta-feira, fevereiro 24, 2005

O que diz Rimbaud...




... e parece que somos sempre seres múltiplos...

Em tudo o que criamos revelamos o Outro de nós.



Somos diferentes nas entrelinhas daquilo que escrevemos.
Somos diferentes naquilo que escrevemos.
Na música que criamos.
No que dizemos.
Nas telas que pintamos.
No que fazemos.
No que sonhamos.
E nas linhas abstractas que inscrevemos numa qualquer folha de apontamentos.
Ou num guardanapo de papel.

E assim todos os nossos Eus se revelam.
Cada um por si, individualmente. Criando aquilo que realmente somos.
Somos vários.
E somos um.
Heterónimos de nós próprios...
Afinal, somos heterónimos de nós próprios...
**
...
E ela, ingénua, perguntou-lhe...
"E qual dos Eus é o mais verdadeiro? O Eu da escrita ou o Eu de todos os dias?"
Ele não soube responder.
Um estranho homem de chapéu, finos óculos e laço, sentado numa mesa mais atrás, pensativo e de perna traçada, olhou aquele casal de jovens amigos e sorriu.
Um outro homem, jovem também, mas mais antigo que o tempo, irrompe pelo café adentro, todo desgrenhado e descomposto. Afogueado, abre os braços e, rodando sobre si, grita:
Je est un autre!
Depois disto, compõe o casaco, adopta novamente uma expressão séria e sai.
Muitos levantam-se e saem também.
Senhoras de compridos casados de peles abanam a cabeça em tom de desaprovação. Rapidamente se esquecem e levam à boca, elegantemente, a fina chávena de chá.
O estranho homem de chapéu interrompe o pesado silêncio instalado com uma também pesada salva de palmas.
Levanta-se e caminha de mãos nos bolsos sem nada dizer, como se nada fosse.
Os restantes clientes do café, naquela tarde esquizofrénica, saem, também, sem terminarem os seus pedidos, incomodados.
Apenas ficam os dois amigos, de mãos dadas sobre a mesa, de olhar fixo.
A resposta ecoava nas suas mentes...
...

1 Comentários:

Blogger Hizys disse...

pois somos. somos pedaços de nós próprios que raras vezes se encontram e que de tantas formas se revelam.

8:54 da tarde  

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