sexta-feira, janeiro 14, 2005

Apesar de tudo, a Esperança.

Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim.
De sonhada, mal vivida,
Triste de quem é assim.
Fernando Pessoa
Chove, realmente.
E só as palavras de Pessoa existem em mim e por mim ecoam, longamente, tristemente.
Ecoam por entre o som frenético dos cassos, por entre este constante rodopio que é Lisboa.
O homem a meu lado escreve também.
O combóio chegou e com ele um cheiro férreo que me atordoa.
A caneta falhou. Como eu.
Não é o meu combóio.
Ou, pelo menos, assim o quero.
A espera, aqui, é inspiradora.
De outra forma a inspiração não viria nunca a esta cidade.
Arrepio-me.
Só eu e este homem aqui sentados na estação. E escrevemos.
Só solidão.
Que escreverá ele?
Frustração, como eu?
Notas meramente técnicas?
Não sei. Nem nunca vou sabê-lo.
A escrita, como o amor, é solidão, José.
Já chegaram mais corpos (entediados?) à estação.
Quem serão?
O que pensarão eles da vida?
O que diriam se soubessem...?
Sinto-me cansada, sim.
Extremamente cansada.
Aproximo-me perigosamente de Pessoa.
Ah! Como todos somos parecidos, mesmo quando nos separam décadas e décadas...
Durante anos os Homens nada aprenderam.
Não aprenderam a viver.
E apesar dos anos que passam, caem todos nos mesmo,
afundam-se na mesma lama,
comem o mesmo lodo,
deixam-se morrer junto ao sargaço, naquela praia da canção.
(o combóio chegou. Entro.
O homem não.
Guardou o bloco onde escrevia e colocou-se na posição fatal, apertanto a cabeça entre as mãos.
Quantos combóios mais verá passar?)
Passam os anos e mentimos quando nos julgamos modernos, inovadores.
Porque somos sempre sempre iguais.
Hoje e Ontem e Amanhã.
E todas as mudanças que julgámos ter feito não passam de meras aparências, ilusões.
Espero que Nietzche seja apenas um
louco
que não sabe o que diz.
Ah! A esperança.
sempre sempre a esperança...
Até quando a história se repetirá?
Poderá esta ser uma nova era?
E era tão bom poder dizer:
(clique aqui se quer mudar o mundo)
Descubram o link. Ele está aí algures. Em cada um de nós.

10 Comentários:

Blogger Vitor Alvito disse...

É verdade, cabe a nós aceder ao link para alterar o mundo...aquele link de que tanto falamos, mas que na verdade quase nunca é activado...Quando é que nos lembramos que o temos??quando acontece alguma coisa, um desastre, quando nos sentimos afectados ou receosos que o venhamos a ser...Mas se estiver tudo bem, ninguém ousa fazer nada...Há que mudar este pensamento...
Espero daqui a uns anos poder dizer "naquele dia, tava completamente errado, mudo totalmente o que disse"

10:56 da tarde  
Blogger Prometeu disse...

Sublimemente lindo.

Prometeu

11:01 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Espero um dia encontrar esse link... Espero um dia conseguir mudar alguma coisa, e deixar de me sentir inutil aos olhos dos outros... Espero, espero, espero...e... Desespero... Mas enfim.. Talvez um dia consiga... Talvez... Talvez...
Adorei o testo nina... Está mesmo muito bonito...
* * *

Yolanda Almeida

5:30 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Oi pessoal!

Li umas cenas no vosso blog, gostei bastante deste post. O arranjo gráfico está muito original e resulta bastante bem, adorei a analogia da caneta a falhar. Seja lá quem fores, Nocturna, belo poema. Muito profundo.

“E apesar dos anos que passam, caem todos nos mesmo,/afundam-se na mesma lama,/comem o mesmo lodo,/deixam-se morrer junto ao sargaço, naquela praia da canção.”

Achei que foi uma passagem muito poderosa e lúcida.

Quanto ao blog em geral e à iniciativa, acho interessante que ainda consigam ter esse desejo de salvar este mundo caído, essa crença que a humanidade pode ser salva da inércia em que vive. Só espero é que não caiam também vocês na inércia das vossas palavras…

Tenho de dizer que penso que o vosso objectivo é algo de intangível, acordar as pessoas e fazê-las aperceberem-se da vacuidade das suas vidas, da frivolidade do mundo e da sociedade. A abordagem não é a mais correcta. As pessoas têm consciência disto, elas sabem que a vida que levam não faz sentido, estão é constantemente a tentar esquecê-lo!

Apercebem-se disso enquanto jovens, quando acordam para o mundo, e ao verem como essa percepção lhes traz ansiedade e desespero e como são impotentes sobre ela, recalcam-na incessantemente até que, ao se afundarem numa rotina, ela nunca mais lhes passe pela consciência. E é bom que não lhes passe. É bom para o seu equilíbrio, para a sua sanidade e felicidade.

A sociedade não quer ser salva. As pessoas não querem acordar, gostam do conforto e do calor dos seus cobertores. E se ainda por cima souberem que ao acordar se vão deparar com uma existência sem significado… Preferem mil vezes permanecer na ignorância.

Porque vocês, que procuram incessantemente a verdade e o caminho para a iluminação, serão sempre angustiados e frustrados, uma vez que a verdade não existe no mundo real, apenas na mente de cada um. Empreenderam uma viagem arrojada rumo a um destino inalcançável. Que benefícios advêm de tal empresa? Nenhuns. Apenas encontrarão um mundo de vácuo, um mundo de especulação inefável que nunca se tornará concreto e palpável. O vosso objectivo acaba por ser tão fútil como tudo o resto.

A única coisa real é a necessidade que o homem tem de encontrar um sentido para a sua existência. O homem não consegue simplesmente aceitar que a sua vida é apenas um erro, que o universo é um acaso e que evolui sem rumo. O homem não consegue acreditar que ele, essa entidade independente que absorve o mundo, que é o centro aglutinador desse mundo, que é o personagem principal dessa grande peça que é a sua vida, é apenas uma aglomeração organizada de matéria, que surgiu na aleatoridade das interacções do universo. Para ele, isso não faz sentido.

Por isso precisa de inventar um motivo. Um sentido. Algo com que se possa guiar. Algo que o prenda e que o faça esquecer a angústia e a solidão que é pensar que não existe mais nada para além disto.

Por isso inventámos os deuses, a vida após a morte, o inferno e o paraíso, a reencarnação e a salvação, o espírito e a alma. E quisemos acreditar que ainda que este corpo físico que habitamos seja apenas matéria que “do pó veio e ao pó voltará”, para lá dele existe uma “alma” que é eterna e una.

Pois bem, desiludam-se, isso não faz sentido nenhum.

E Nocturna, lamento desapontar-te, Nietzche não é louco. Deus está mesmo morto. Na realidade, ele nunca esteve vivo. É um pouco como o Pai Natal. Só viveu enquanto acreditámos nele. Mas agora, ao acordarmos, apercebemo-nos que ele afinal nunca existiu. E sentimo-nos sozinhos no meio da escuridão.
Mais valia ficar a dormir?

Bem, se tivermos consciência da finitude da vida, se nos apercebermos que a “alma” não existe e que quando morrermos tudo vai acabar, o mundo vai desabar e desagregar-se e deixar de existir – pois que sentido faz a peça sem o personagem principal? Se tivermos esta consciência, talvez pensemos de uma forma mais epicurista. Carpe Diem! O que interessa é o momento, na sua frivolidade e volatilidade. Se só vivemos uma vez, porquê perder tempo a pensar que rumo seria o certo, se ainda por cima nunca o iremos descobrir? Mais vale esquecer isso e ser feliz.

Não vos quero desanimar, acho o vosso trabalho importante. Reparem que ainda que o meu discurso seja desprovido de esperança, eu apenas não tenho esperança na humanidade no seu geral. Mas é sempre bom saber que há alguém, entre estes seis mil milhões de pessoas, que se preocupa com o nosso rumo. Pois nós somos os remadores deste barco que está perdido no mar, absorvidos na tarefa mecânica de remar, enquanto vocês são o homem do leme, que procuram incansavelmente a terra, mas que nem sabem que direcção tomar!

Um bem hajam de um vosso colega (enquanto aluno do 1º ano no mundo académico), do curso de engenharia física tecnológica do IST,

Némesis

6:10 da manhã  
Blogger Prometeu disse...

Falo por mim: já há muitos anos me deparei com a vacuidade da Vida, com a sua total aleatoriedade no cômputo geral das coisas. Mas se é verdade que a Vida não tem nenhum sentido específico (e por isso ainda eu no outro post matei Deus outra vez), também não é menos verdade que as vidas individuais podem ter um sentido geral.

É por isso que no tempo que aqui estamos temos o dever de contribuir para algo, para o melhoramento da nossa existência e da de todos os humanos. Ao contrário de aceitarmos e calarmos, estamos, pouco a pouco, ideia a ideia, tijolo a tijolo, a reconstruir o social, a destruir pré-conceitos...

Espero que continues a comentar, pois agradecemos todo o apoio: nunca somos demais nesta batalha contra o pré-estabelecido e contra as condenações a priori. Também nós somos o némesis da sociedade.

Prometeu

10:19 da manhã  
Blogger Sophia disse...

Quem é que, gostando de escrever, nunca deu por si agarrado a um papel numa qualquer rua da cidade?
Quem é que, gostando de sonhar, nunca deu por si a observar alguém perto de si, alguém que talvez pense exactamente como nós mas com quem nunca trocaremos uma única palavra?
Quem é que, querendo mudar o Mundo, nunca tentou convencer os outros que isso pode ser feito, que não é assim tão difícil?
Quem é que já conseguiu descrever tudo isto com a beleza, com a magia, com a força das tuas palavras que nos fazem sonhar?...
Espero que nunca percas a Esperança.
Espero que continues a ajudar-nos a mantê-la viva.
Espero que um dia consigamos encontrar esse link, tão visível e tão escondido...

4:40 da tarde  
Blogger Nocturna___ disse...

Ao Vítor, à Yolanda, ao Prometeu, ao Nemésis, à Sophia e ao homem que, naquela tarde se sentou a meu lado a escrever:

muito obrigada,

ao anónimo que nunca voltarei a ver, por me ter acompanhado no acto solitário que é a escrita ["I'm not the only one...", já dizia John Lennon, não é Sophia?]

aos primeiros, por me fazerem acreditar que o link para mudar o mundo está aí algures e que não se concentra numa só pessoa ou lugar...

Faço minhas as palavras de Eddie Vedder:

"The world as come undone,
like to change it every day...

CHANGE DON'T COME FROM ONE
THERE'S A WAVE..."

[Pearl Jam, "Undone"]

Todos nós podemos ser, aproveitando as palavras do Nemésis, homens-do-leme, aqueles que comandam o barco da vida, mas também, e sobretudo, aqueles que fazem as ondas de mudança...

10:51 da tarde  
Blogger Nocturna___ disse...

post scriptum:

Nemesis,
quando me referi a Nietzsche, não tinha em mente a sua opinião acerca de Deus, mas a sua afirmação de que o sujeito é, por si só, uma ilusão.

Ficam aqui também expressos o meu agradecimento pelo excelente comentário que fizeste ao post e o desejo que continues a participar neste projecto.

11:09 da tarde  
Blogger Nocturna___ disse...

post scriptum:

Nemesis,
quando me referi a Nietzsche, não tinha em mente a sua opinião acerca de Deus, mas a sua afirmação de que o sujeito é, por si só, uma ilusão.

Ficam aqui também expressos o meu agradecimento pelo excelente comentário que fizeste ao post e o desejo que continues a participar neste projecto.

11:09 da tarde  
Anonymous Anónimo disse...

Obrigado pelo reparo Nocturna, utilizei a analogia a Nietzsche apenas para enfatizar a ideia que queria transmitir, desculpa pela má interpretação, realmente naquele contexto não era mesmo subjectivo!
Entretanto tenho comentado aqui e ali e tenho tido umas discussões interessantes com o Prometeu. Continuem,

Némesis

5:06 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home