quarta-feira, dezembro 01, 2004

O culto do corpo na adolescência - uma simples questão de beleza ou princípio de doença?

É verdade que o corpo sempre foi, desde a Grécia Antiga, objecto de culto e de grande dedicação. A partir daí, a importância que lhe atribuímos tornou-se exageradamente grande. Tanto é assim que, a dada altura, sentimos vergonha (diria até mesmo receio) de aparecer em público, de nos mostrarmos aos outros tal como somos. E tudo por uma questão de estética, atenção! Um pneuzito a mais aqui, uma gordurinha a mais ali...e é desta forma que tudo começa. E perguntam-me, com razão, mas tudo o quê?
Bom, na verdade, este tudo engloba as dietas, as causas das dietas, as consequências das dietas não equilibradas pelas quais optam tantas e tantas adolescentes. De facto, quando se trata de situações de excesso de peso, ou mesmo obesidade, a solução passa exactamente por uma ida ao médico e, consequentemente, pela prescrição de uma dieta adequada ao caso. No entanto, quando falamos de raparigas com um peso perfeitamente normal e adequado à altura, então o desejo de emagrecimento é já algo preocupante e bem mais sério.
O que ainda não consegui entender foi o porquê deste desejo (por vezes, súbito) de emagrecimento. E isto, porque a lista de motivos que levam uma adolescente a querer fazer dieta é consideravelmente grande. Os namorados que criticam, as amigas (se é que posso utilizar este termo) que fazem aqueles comentários mesquinhos, os testes rídiculos das revistas para adolescentes que, não sei bem através de que método estatístico, conseguem dizer se estão gordas ou magras (poupem-me, por favor!), a balança que acusa uns quilinhos a mais, o espelho que mostra uma imagem diferente daquela que gostariam de ter, a roupa que adoram ver nas outras raparigas, mas que não lhes serve, enfim...toda uma panóplia de factores que as atormentam, que as assustam e que, ao mesmo tempo, as deixam com um sentimento horrível de culpa.
Quanto às dietas propriamente ditas, sem comentários! Inicialmente, deixam de lado aquele chocolate ou aquele doce com óptimo aspecto (que as iria deixar com mais um pouco de celulite). Depois, quando o organismo se começa a habituar a rejeitar certo tipo de alimentos, partem para uma fase mais complicada - a de evitar os que são realmente essenciais: o leite, o pão, a fruta que acham ter mais calorias, as bolachas, a manteiga, o fiambre, o queijo, e assim por diante. De um momento para o outro (transição esta bem mais rápida do que daquilo que possam pensar) , recusam por completo tudo aquilo que lhes faz falta.
E digo, desde já, que não adianta dar conselhos, dizer que estão bem, que estão magras, porque as adolescentes que passam por esta experiência perdem, simplesmente, a capacidade para ouvir ou para compreender o que quer que seja.
Entretanto, o organismo começa a ressentir-se, entra num estado de carência profunda, e a esforço que estas adolescentes fazem para que ninguém se aperceba do seu problema é incrível: é a roupa larga que passa a fazer parte do seu dia-a-dia – numa tentativa de disfarce da magreza em que se encontram -, são as repentinas faltas de apetite ou as refeições tomadas antes do horário habitual - para que ninguém possa controlar o que (não) comem -, são os trabalhos de grupo em casa das amigas (mais um pretexto para não comer) que se tornam frequentes. Bom, e, se continuasse, estaria aqui tempos infindáveis para conseguir enumerar tudo aquilo que acontece depois de se iniciarem as ditas dietas.
Perdoem-me se estou a ser demasiadamente realista, mas não se trata aqui de uma simples questão de beleza: este pode ser (e é, na maior parte dos casos) o princípio de uma grave doença. Pois é, refiro-me à anorexia! Todos os dias ouvimos falar neste nome: ou porque lemos numa qualquer revista um artigo sobre o assunto, ou porque vemos reportagens na televisão, ou até mesmo porque temos um caso bem perto de nós. A anorexia é, na verdade, um problema sério e que deve ser detectado o mais rapidamente possível. Posso não ter legitimidade suficiente para dar conselhos sobre como enfrentar a anorexia, mas peço-vos para estarem atentos. Se estivermos com atenção, conseguimos perceber os sintomas, que são de uma variedade incalculável: interesse pela confecção dos alimentos, pelas calorias, dificuldade de concentração, baixa auto-estima, prática excessiva de exercício físico, obsessão pela balança, entre muitos outros. As consequências, essas, ainda conseguem formar uma lista maior: perda de massa óssea (osteoporose), anemia, depressão, dores de estômago, enfraquecimento e posterior queda de cabelo, tonturas e dores de cabeça constantes, ausência de menstruação, e tantos outros que só aparecem mais tarde, quando tudo parece voltar ao normal.
E mais do que a perda de peso «sem justa causa», como afirma o Prof. Daniel Sampaio, há que ter em conta as atitudes das raparigas anorécticas. A agressividade, o isolamento, as crises de choro compulsivas, o humor instável. Não adianta adiar a situação, fingir que nada se está a passar, porque, enquanto isso, a doença vai progredindo e provocando danos, por vezes irreparáveis.
Não podemos esquecer ainda que a anorexia nervosa tem duas vertentes: a anorexia nervosa restritiva, que envolve uma dieta bastante rígida e uma recusa em ter um peso considerado normal; e a anorexia nervosa compulsiva, em que prevalecem os comportamentos típicos da bulimia e uma preocupação em evitar o aumento do peso. A mais conhecida é, sem dúvida, a primeira referida.
Sei perfeitamente que este meu artigo não vai alterar radicalmente o modo de agir destas adolescentes, mas queria que este fosse o princípio de algo: o princípio para uma mudança de atitude, por mais pequena e insignificante que seja! Porque mais importante do que o sentimento de ajuda dos outros, é a auto-percepção daquilo por que estão a passar, a coragem de o assumir e a vontade de querer voltar a ser quem eram!

Neste momento, devem estar a pensar que este post nada tem a ver com os objectivos dos Neo-Illuminati...mas não é bem assim: um dos nossos objectivos é exactamente o de (in)formar, o de educar o espírito...o de tentar abrir os olhos daqueles que insistem em permanecer na escuridão!! E a anorexia é, de facto, um problema grave que merece, a meu ver, alguma atenção.

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